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"Os diletantes são-no geralmente de ideias ou de emoções - porque para compreender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortais, podemos, sem que nenhum obstáculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos ilimitados campos do raciocínio ou da sensibilidade.” Eça de Queiroz

O Brasil e o futuro

João A. Moreira, em 18.06.13

Há um ano atrás, escrevia isto:

Nos últimos 60 anos, o Brasil firmou a democracia depois de 21 anos de ditadura militar, com a morte dum presidente e o impeachment doutro pelo meio, mudou de moeda duas vezes, controlou uma inflação galopante, tornou-se um dos maiores exportadores de bens alimentares do mundo e o terceiro maior produtor de carros (na década de 50 importava todos os carros utilizados no país), passou a explorar petróleo em águas profundas enquanto desenvolveu formas alternativas de energia e atenuou as diferenças regionais descentralizando o investimento federal e estadual.

Durante este período, mais de 40 milhões de brasileiros abandonaram o limiar de pobreza e muitos outros ascenderam de classe social: “uns conseguiram seu primeiro sapato ou fizeram sua primeira viagem de avião, outros compraram seu primeiro helicóptero, seu primeiro barco ou fizeram a primeira cirurgia plástica.”

Ancorado na pujança do mercado interno, tem conseguido manter níveis de crescimento aceitáveis, apesar da drástica quebra das exportações, consequência da valorização do real e da crise económica internacional. Fugindo à esquizofrénica tentação do nacionalismo populista de esquerda que destruiu a Venezuela e a Bolívia e se prepara para destruir a Argentina, afirmou-se como a maior potência da América Latina, ao mesmo tempo que ascendeu à invejável posição de sexta economia do mundo.

No entanto, apesar das gigantescas transformações que sofreu nas últimas décadas, o Brasil mantém problemas estruturais que precisa de resolver para que se possa afirmar definitivamente como uma potência económica mundial:

•a modernização das suas redes viária, aeroportuária e marítima, para reduzir custos de transporte, atenuar diferenças regionais e estaduais e dinamizar o turismo;

•a reforma dum ensino onde 50% das crianças do 5º ano são semianalfabetas e apenas 1,8 milhões, dos 3,5 milhões de alunos que ingressam no ensino médio, se formam;

•a aposta na formação profissional, para colmatar a falta de pessoal qualificado no turismo, no comércio e na indústria;

•a redução do peso dum “Estado pantagruélico” que “gasta onde não há necessidade, em benefício de si mesmo, e economiza no essencial – na educação, na segurança, na saúde, nos investimentos em infraestrutura”;

•a flexibilização das leis laborais e fiscais, que impedem o desenvolvimento industrial e sobretudo a atracção do investimento estrangeiro;

 

Estes são alguns dos desafios que enfrenta o “gigante sul-americano” e a que precisa dar resposta. Felizmente, o Brasil cresce a um ritmo estável há anos, não depende de ajudas externas para se modernizar e continua detentor das ferramentas económicas que definem um país independente: autonomia orçamental, cambial e monetária. É, pois essencial que enfrente estes desafios de forma rápida e determinada.

Um ano depois, pouco ou nada foi feito para alterar este estado de coisas. Pouco foi feito, mas muito mudou.

A taxa de crescimento caiu abruptamente para valores que accionaram os alarmes de alerta nos corredores do poder; a inflação disparou começando a ser sentida efectivamente pela população; o povo brasileiro assistiu esperançado à condenação da maior rede de corrupção política da jovem democracia brasileira, para se desiludir pouco depois, ao perceber que alguns dos condenados não só continuavam em liberdade como, nalguns casos, mantinham o exercício de cargos políticos; os estádios previstos para o Campeonato das Confederações foram finalizados a tempo, mas com derrapagens de milhões e milhões de reais; a violência aumentou na maioria das grandes capitais brasileiras, nomeadamente São Paulo, revelando uma realidade há muito conhecida, mas evitada por todos, a da enorme incidência de crimes violentos praticados por menores.

Durante o último ano, o Brasil “caiu na real” e assustou-se. Por isso saiu à rua, em protesto. Os vinte centavos de aumento nos transportes públicos foram apenas o mote para uma revolta anunciada há meses nas redes sociais e feita à revelia dos partidos políticos. A velha classe média brasileira juntou-se nas ruas de São Paulo, do Rio, de Brasília e de tantas outras capitais do país com a novíssima classe média catapultada a essa nova posição pelas políticas sociais dos governos PT, formando uma amálgama de descontentes, não com nenhum político em particular, apesar dos insultas à Presidente Dilma, mas antes contra todos os políticos, não contra nenhum partido, mas antes contra todos os partidos.

Como em todos os momentos politicamente tensos do Brasil, do movimento “Diretas Já”, ao “Impeachment” ao então Presidente Collor (actual parceiro do governo), os partidos foram relegados para segundo plano e o Brasil avançou na direcção da democracia e do crescimento. Talvez este novo protesto crie no poder instituído o sobressalto capaz de imprimir a urgência necessária às medidas imprescindíveis para voltar a colocar o Brasil no rumo do progresso.

Espero sinceramente que assim seja.

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