Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



"Os diletantes são-no geralmente de ideias ou de emoções - porque para compreender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortais, podemos, sem que nenhum obstáculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos ilimitados campos do raciocínio ou da sensibilidade.” Eça de Queiroz

Os Dias da Rádio

João A. Moreira, em 24.09.13

Confesso que apesar de ter nascido na era da imagem, sempre tive um particular fascínio pela rádio. Na infância, a televisão era um objecto raro e quase inacessível a não ser durante as manhãs de Sábado e de Domingo e em doses limitadas. Até porque, esta coisa de estar fechado em casa com um mundo inteiro para descobrir lá fora, para mim, não era sequer uma opção. Por isso, habituei-me desde cedo à companhia permanente da telefonia. Mesmo quando não lhe prestávamos atenção, lá estava ela, pautando o dia com músicas que lentamente nos entravam no ouvido e que passávamos a trautear horas a fio.

Foi através dela que vibrei com os relatos do meu Sporting nas vozes inconfundíveis do Alves dos Santos e do Artur Agostinho, que ouvi pela primeira vez os acordes dissonantes da bossa na voz doce do João Gilberto, que me apaixonei pelo saxofone melódico de John Coltrane e que estranhei para depois entranhar, os electrizantes gemidos da guitarra de Jimmy Hendrix.

Anos mais tarde, quando o sonho das rádios locais invadiu o país, extintas as restrições colectivistas da pós-revolução, também eu me deixei entusiasmar pelas ondas hertzianas e, por simpatia do Carlos Clara Gomes, lá me aventurei a realizar um programa de jazz na Rádio Noar, escola fantástica de onde saíram grandes nomes do jornalismo nacional.

Porém, nunca me tinha apercebido do incrível poder da “caixa mágica” até ao tristemente célebre, dia 12 de Novembro de 1991. Nessa manhã, em que foram covardemente chacinados no cemitério de Díli, centenas de jovens timorenses que apenas pretendiam rezar pela alma do seu camarada morto pelos militares indonésios, a rádio fez toda a diferença. Numa atitude sem precedentes, a direcção da TSF decidiu suspender a programação e dedicar-se exclusivamente a alertar Portugal e o Mundo do que acontecia em Díli. Pela primeira vez em muitos anos, a rádio uniu um país em torno duma causa esquecida e um país unido mobilizou o mundo. Não foram os milhões de portugueses que, respondendo ao repto pungente da TSF, saíram à rua vestidos de branco para clamar contra o extermínio dum povo irmão, que acabaram com a ocupação Indonésia de Timor, mas sem essa demonstração de união e solidariedade, talvez não tivesse sido possível uma tão rápida libertação de Lorosae. No fim de semana que passou, voltei a assistir à importância mobilizadora da rádio. Numa região fustigada por enchentes a que o alheamento dos políticos e a falta de mobilização local teimam em não por fim, percebi a importância da informação rigorosa e permanente.

Aqui pelo Brasil, a rádio ainda tem a magia da minha infância. É escutada atentamente ao longo do dia, marcando a actualidade, informando, divertindo, acompanhando. Por isso, foi sem surpresa que, neste fim-de-semana de susto em que a memória colectiva recuou até 2008 e 2011 e à dramática destruição que essas enchentes causaram, assisti ao extraordinário papel dos excelentes profissionais da comunicação, dentre os quais destaco sem favor e com orgulho o meu amigo Carlos Henrique Roncálio que, informando com rigor e sem sensacionalismo sobre a evolução da tragédia iminente; alertando para as zonas de maior risco com o tempo necessário para que cada um pudesse salvar os seus pertences; incentivando a solidariedade, que nestes momentos de drama é a principal arma contra o pânico, foram os verdadeiros soldados da Defesa Civil, desempenhando um papel que no limite caberia ao Estado. Em cada casa, em cada rua, ouviam-se as vozes tranquilizadoras desses profissionais, que recorrendo a todos os meios para obter a informação mais fidedigna, para recolher testemunhos emocionados e apelando à serenidade, souberam dar uma lição de profissionalismo e serviço público ímpares. Graças a Deus, a tragédia não se deu e todos pudemos respirar de alívio.

Este fim-de-semana por todo o Vale Europeu de Santa Catarina provou-se que, na era de todas as tecnologias e contra todas as expectativas, estes ainda são, felizmente, os Dias da Rádio.

Autoria e outros dados (tags, etc)



os diletantes

JdF
Joana da Franca

JAC
João Albuquerque Carreiras

João A. Moreira
João Almeida Moreira

ajbarrote
Jorge Barrote

osdiletantes@sapo.pt





pesquisar

Pesquisar no Blog  




Google Analytics