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"Os diletantes são-no geralmente de ideias ou de emoções - porque para compreender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortais, podemos, sem que nenhum obstáculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos ilimitados campos do raciocínio ou da sensibilidade.” Eça de Queiroz

"Além do bife não quer levar também um Machado de Assis?"

João A. Moreira, em 21.02.13

 

Quando chegou a Brasília, aos 12 anos, vindo da sua Bahia natal, Luiz Amorim dos Santos não imaginaria que um dia iria revolucionar a imagem cultural da Capital Federal brasileira.

Talhante de profissão alfabetizou-se aos 16 anos e desde então nunca mais deixou de ler. Depois de horas de trabalho cortando com arte fraldinhas, picanhas, chãs, chorizos e anchos, refugiava-se nas traseiras do talho, onde vivia, para se perder em leituras. Por isso, foi com naturalidade que, em 1994 quando comprou o espaço aos anteriores proprietários, decidiu colocar na entrada do seu talho uma estante com livros para emprestar. Entre doações e novas aquisições, Luiz Amorim rapidamente chegou a uma biblioteca de mais de 10 000 livros.

Depois de resolvidos os problemas levantados pelas autoridades sanitárias, que implicou a aprovação duma legislação específica permitindo a realização de actividades culturais em espaços comerciais, o “Açougue Cultural T-Bone” tornou-se um verdadeiro caso de estudo no universo cultural brasileiro. Hoje, Luiz Amorim organiza bienais de poesia, apresentações de livros, encontros de escritores, críticos e cantores. Por ali já passaram Lenin, Chico César, Zé Ramalho, Zélia Duncan, entre muitos outros e as suas Noites Culturais já fazem parte do calendário oficial da capital.

Pelo meio, o talhante literato, lançou um projecto de bibliotecas nas paragens dos autocarros da cidade, apoiado pela Petrobrás e pelo Banco do Brasil, que já conta com mais de 600 livros distribuídos por 37 paragens e que ele próprio abastece diariamente e que curiosamente nunca foram vandalizados.

No “Açougueiro Cultural T-Bone”, promove uma política de incentivo à leitura com os seus funcionários que se baseia no seguinte: cada funcionário que leia um livro e lhe entregue um resumo do que leu, recebe um bônus mensal de R$200,00. Como diz o próprio: “o importante é que leiam e aprendam a manusear livros, não só carnes.”

Se no início era normal os clientes assustarem-se ao encontrar livros no “Açougue Cultural T-Bone, hoje acontece o contrário e quem vem a primeira vez, assusta-se ao ver costelas e lombos, porque muitos deles pensam que o “açougue” é só um nome e não um talho de verdade.

Por isso, quando passar por Brasília não deixe de comprar uma fraldinha neste talho e não se admire se o Luiz Amorim perguntar: “Não quer levar também um Machado de Assis?”

 

Nota: Este texto é baseado no artigo de Clara Becker intitulado “Filé com Letras” publicado no Jornal Piauí nº77 de Fevereiro de 2013.

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